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MídiaNão vemos espaço para o BC ir além de 14,5% na Selic, diz JGP
Para o gestor Eduardo Cotrim, que tem privilegiado posições táticas, piora da inflação deve impedir novos cortes na taxa de juros
O ciclo de cortes na Selic será mais curto do que o mercado espera e deve ser interrompido com a taxa em 14,5%. Essa é a visão da JGP, que, em março, viu seus fundos se destacarem na indústria de multimercados com apostas na alta das taxas domésticas em meio à disparada dos preços do petróleo. A postura mais tática desde o início do ano tem guiado a estratégia dos fundos, afirma o sócio e gestor Eduardo Cotrim, em entrevista ao Intraday, blog sobre mercados financeiros do Valor, ao defender que a inflação mais alta deve fechar a janela para uma flexibilização mais intensa dos juros. “As circunstâncias vão fazer com que o BC suspenda o ciclo e pare por aí.”
Valor: A guerra no Irã mudou muito o posicionamento da JGP?
Eduardo Cotrim: Nós já estávamos olhando para os ativos brasileiros e encarando este ano como binário, porque temos eleição em outubro. Hoje, o melhor chute que temos é que é um evento ‘50-50’. Isso posto, há algum tempo estamos com um posicionamento muito mais tático, sem grandes exposições estruturais, e isso nos beneficiou no início da guerra. Tínhamos um posicionamento técnico mais leve e, por isso, tivemos mais facilidade de ajustar nossas posições.
Cotrim: Uma coisa em que já divergíamos do mercado era nos juros. Quando começou o conflito, o mercado precificava um ciclo de 3 pontos de cortes, enquanto víamos um cenário de alta para a inflação por causa dos dados de atividade e de inflação corrente. No nosso entendimento, o BC procurava fazer um ajuste na taxa de juros e, não necessariamente, mudar a postura restritiva da política monetária. E, nisso, a nossa percepção era que existia uma janela para que o BC fizesse isso. Mas, apesar de uma Selic de 15% parecer um juro muito alto, no contexto de política econômica como um todo, com a política fiscal bastante gastadora, a taxa de juros tem sido menos restritiva do que as pessoas acreditam ou do que o modelo do Banco Central projeta Não acreditamos nessa convergência da inflação. E, por isso, o nosso “call” é bem diferente do mercado. Vemos espaço para mais um corte de 0,25 ponto na próxima [reunião do Copom, em abril] e as circunstâncias vão fazer com que o BC suspenda o ciclo e pare por aí.
Valor: É um “call” que destoa bastante do consenso
Cotrim: Nossos números de inflação apontam para um IPCA acima do teto da banda neste ano e, no ano que vem, no teto. E o horizonte relevante é no fim do ano que vem. Não vemos espaço para o BC ir além [de 14,5%]. Se insistir na ideia de que temos de reduzir os juros, podemos ver uma desancoragem maior das expectativas.
Valor: Isso se refletiu nas posições da JGP?
Cotrim: Tivemos uma posição mais tomada em juros [aposta na alta das taxas]. Quando começou a guerra, vimos uma possibilidade de correção [no mercado de juros], tomamos juros no mês passado e ganhamos dinheiro com isso. A contribuição positiva veio da parte de juros no Brasil. Mas várias coisas estão acontecendo Tivemos o anúncio do cessar-fogo e, de repente, os mercados se empolgaram, sendo que nada aconteceu efetivamente ainda e, sem considerar que o petróleo de longo prazo continua entre US$ 75 e US$ 80 e que se continuar nesses níveis é algo ruim.
Valor: O câmbio e a bolsa têm se comportado bem
Cotrim: Passamos por esse período todo com tranquilidade no mercado de moedas, que é algo que não víamos há bastante tempo. O mercado está muito na página de diversificação do dólar, de alocar recursos em outros lugares. Uma das coisas para que o mercado costuma olhar para continuar comprando espaço para um ciclo de queda de juros é o dólar calmo e hoje [sexta-feira] o dólar bateu R$ 5. O dólar pode, eventualmente, continuar caindo. A questão é: essa apreciação cambial associada aos choques que temos em alimentação e combustíveis e o momento da economia, com diversos programas que o governo está fazendo que são populistas ou tentam antecipar a agenda para o calendário eleitoral, são fatores que vão estimular a economia.
Valor: É o que está por trás do “call” da JGP?
Cotrim: Sim. São muitas coisas que sustentam a atividade: isenção do Imposto de Renda; consignado privado; aumento de concessão de empréstimos do BNDES; aumento das faixas de renda do Minha Casa Minha Vida; auxílio gás; redução da fila do INSS, que tem um impacto fiscal grande; tentativa de liberar R$ 17 bilhões do FGTS para ajudar os endividados; um Desenrola 2, também para ajudar os endividados; subsídios de combustíveis para tentar controlar o aumento do diesel na bomba, que tem um custo fiscal; tentativa de ampliar o Pé de Meia; fim da escala 6×1 com manutenção salarial; antecipação do pagamento de precatórios; antecipação de emendas Tudo isso mantém a atividade sustentada. E os Estados e municípios estão com caixa folgado e vão gastar também. A foto no fim do primeiro semestre é de um crescimento de 10% do gasto real do governo em relação ao primeiro semestre de 2025. É muita injeção de dinheiro na economia. Sem considerar um eventual aumento da gasolina pela Petrobras, nosso número de inflação é de 5,2% este ano e de 4,4% ano que vem.
Valor: O BC mostrou alguma preocupação com a desancoragem das expectativas, principalmente as mais longas, nos últimos dias
Cotrim: A de 2028 eu vejo mais como um ruído. Não consigo falar de 2028 sem falar de 2027 e, até agora, o que aconteceu no Focus na projeção de 2027 tem sido bastante confortável. Acho que, até agora, tudo o que o [presidente do BC Gabriel] Galípolo tem feito e falado nos discursos recentes faz muito sentido. Dentro do meu “call” de que o ciclo não vai acontecer, não existe uma crítica ao que o BC tem feito. Não acredito que os agentes estejam em um momento de desancoragem por perda significativa de credibilidade. Se o BC insistir em cortar os juros, aí sim pode haver algum questionamento mais à frente.